É chegado o momento de acrescentarmos ao tempo e ao espaço mais uma dimensão fundamental à vida no Universo: o tesão.
Fritz Perls, que era alemão e escrevia também em inglês, deu a essa dimensão o nome de awareness. Palavra de tradução difícil para o português e, à falta de outra melhor, escolheu-se conscientização.
Mas, para compreender o que Fritz queria designar por awareness, é preciso utilizar vários outros conceitos, além do estado de aptidão mental responsável: o estar física e emocionalmente em prontidão, alertas, atentos, disponíveis, sintonizados, sensibilizados, sensorializados, sensualizados a todos os estímulos internos e externos da vida cotidiana. Coisas que quase significam tesão no português falado no Brasil. Mas apenas quase, porque tesão é mais que isso.
Fritz devia ser um homem muito tesudo, sem dúvida, além de genial. Mas tanto a sua língua materna quanto a adotiva não possuem, talvez por puritanismo hipócrita anglo-saxônico e germânico ancestral, algo equivalente a tesão. Enfim, sentia e vivia uma coisa que lhe pareceu ser uma das dimensões fundamentais da vida no Universo, mas que não possuía nome próprio autorizado. Por isso socorreu-se de awareness para sugerir que, graças a essa dimensão, nós sentimos a vida à flor da pele, podemos fazer fluir e tornar disponíveis nossos potenciais humanos e biológicos. Além disso, nos permite estar prontos para agir e reagir satisfatoriamente aos estímulos naturais e sociais, nos possibilitando também perceber e expressar de modo espontâneo os sentimentos e as emoções. Finalmente, ela nos faz criar, amar, jogar, brincar, lutar pelo simples e encantado prazer de estar vivo. Awareness, pois, nessa conceituação ampla de vida pulsando no tempo e no espaço, na duração e no ritmo de cada ser, representaria o que produz no homem o seu desejo-prazer essencial: a liberdade. Assim, por liberdade entenderíamos o tesão do tesão pelo tesão.
Mas a palavra tesão, hoje, no Brasil, tem um significado muito diferente do que consta nos dicionários da língua portuguesa e de como era pronunciada e entendida até a metade da década de 60. Tesão, agora, é muito mais do que tesão, porque de substantivo passou a ser adjetivo e está a pique de virar verbo quase completamente transitivo e pronominal: eu teso, tu tesas, ele tesa, nós tesamos, vós não tesais jamais, eles tesam. Assim, se estudarmos o universo vocabular da juventude brasileira, encontraremos a palavra tesão como a expressão verbal-chave do seu conteúdo lingüístico atual. Torna-se imperioso, pois, para entender as mutações culturais contemporâneas, que se conheçam, tanto em profundidade quanto em extensão, as mudanças operadas na forma e na qualidade de vida das últimas gerações que as transformações semânticas ocorridas recentemente na palavra tesão estão a indicar. E vice e versa, sobretudo. Pois concordo com o pichador de parede que escreveu esta frase no muro de um cemitério em São Paulo: Sem tesão não há solução.
Roberto Freire - Adaptado do livro "Sem Tesão Não há Solução"